JUSTIÇA | Entrevista

A luta de Caren Machado pelas minorias sociais
A advogada luta pelos direitos da pessoa transplantada e das minorias sociais, em especial a mulher e a comunidade LGBT+

Caren Machado se propôs a exercer a advocacia como um instrumento da paz social. A advogada, Mestre em Direitos Humanos, acredita na transformação social, no respeito e dignidade. Dentre as bandeiras da advogada, está a defesa das pessoas transplantadas – sobre esse assunto, ela é coautora do livro “Pessoa Transplantada: a necessidade de criação do Estatuto de Proteção Integral.”
 
Atualmente Caren dedica-se à advocacia e à docência, com ênfase às atividades relacionadas à pesquisa científica na defesa das minorias sociais, em especial a mulher e a comunidade LGBT+.
A profissional defende que: “é necessário que a pauta das mulheres deixe de ser um discurso e passe para a prática da país.” E também: “A pauta LGBT+ é urgente, uma vez que o Brasil é o País que mais mata pessoas que fazem parte da comunidade LGBT+. A questão é: são pessoas, somos pessoas, estamos juntos.”
 
Caren possui especialização em Direito Material e Processual do Trabalho; tem formação na área da saúde, tendo trabalhado na Clínica Renal de Santa Maria e atuado como servidora pública federal lotada na UTI do Hospital Universitário de Santa Maria – HUSM.
 
A gaúcha, que hoje reside e trabalha em Chapecó-  SC, foi militar, no Cargo de Sargento do Exército Brasileiro, tendo servido no 4º Batalhão Logístico em Santa Maria – RS e prestado serviços no Hospital Militar da Guarnição - HGUSM.
 
Confira a entrevista!

 

 
Caren, conte um pouco sobre você.
Nasci em Santa Maria no RS, mas resido há 11 anos em Chapecó-SC, local onde criei raízes pessoais e profissionais. Sou filha de um policial civil aposentado e de uma enfermeira. Tenho dois irmãos.
 
Você destaca em suas redes sociais, que pratica a “Advocacia Humanizada”. O que isso significa?

Advocacia humanizada é tratar os casos que chegam até mim, com base no princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Isso significa enxergar todos os atores envolvidos no caso, sob a ótica da complexidade humana. Na prática, consiste em atender o nosso cliente sem realizar julgamentos, acolhendo suas dores e buscando uma solução mais rápida e que tenha efeitos além dos jurídicos, mas também sociais. Significa também procurar entender a pessoa que está na parte contrária e facilitar o diálogo entre ela e o nosso cliente. Além disso, a Advocacia Humanizada consiste em basear nossos pedidos nas fontes que fundamentam os Direitos Humanos.
 
Quando começou esse amor pelos direitos humanos? Quando decidiu que atuar nessa área seria sua missão?
Além de Advogada, eu também tenho formação como Técnica de Enfermagem. O meu primeiro trabalho na área da saúde foi em uma Clínica Renal, onde eu trabalhava com pacientes com insuficiência renal crônica e que dependiam de um tratamento chamado hemodiálise para sobreviverem. Esse tratamento é feito da seguinte forma: o paciente precisa ir três vezes por semana até a clínica e lá ele é conectado a uma máquina que fica por quatro horas filtrando o sangue dele. É um tratamento bastante sofrido. Ele faz esse tratamento enquanto aguarda um rim... Essa experiência me despertou para muitas coisas na vida e acredito que ali nasceu o meu amor pelos Direitos Humanos. Depois, já na área jurídica eu me apaixonei pelo Direito Constitucional por entender a importância da Constituição Federal no Ordenamento Jurídico Brasileiro. A nossa constituição tem como um dos artigos mais importantes o art. 5º que consiste em um catálogo de Direitos Humanos Fundamentais, como por exemplo o direito à vida, à liberdade, à igualdade entre outros. Então o cerne do Direito no Brasil e no mundo, são os Direitos Humanos.

 

Você é coautora do livro “Pessoa Transplantada: a necessidade de criação do Estatuto de Proteção Integral.” O que levou você e o advogado André Amaral Medeiros, a escrever esse livro?
Foi a minha experiência profissional como Técnica de Enferma
gem, oportunidade em que pude observar o quanto as pessoas transplantadas necessitam de uma proteção legislativa para que possam viver com o mínimo de dignidade e em condições de maior igualdade em relação às demais pessoas, bem como minha experiência como Advogada Trabalhista, que me permitiu ver o quanto essas pessoas sofrem preconceito no mercado de trabalho, ficando muitas vezes sem acesso às vagas de emprego. Hoje se houver uma vaga para trabalho e duas pessoas se colocarem à disposição, sendo que uma delas for transplantada e a outra não, é quase certo que a escolhida vai ser a pessoa não transplantada. Diante disso, é mister que a legislação crie formas de combater essa situação de desigualdade.
 
Hoje, você acredita que ainda há muito para avançar com relação à proteção dos direitos da pessoa transplantada? Como é possível mudar essa realidade?
Sim, muitas coisas precisam ser feitas. Precisamos de um estatuto específico da pessoa transplantada para que a lei possa prever as mais variadas situações fáticas que essas pessoas possam estar expostas. Eu penso que todos os Entes Federativos devem envidar esforços para garantir os direitos da pessoa transplantada. Além da questão legislativa existe a necessidade de que a temática seja objeto da pesquisa e informação. Se a sociedade entender a situação real das pessoas transplantadas as mudanças virão de forma mais rápida e fácil, e isso só se dá através da educação social.
 
Além de lutar pelo direito das pessoas transplantadas, você também fala em proteção das minorias sociais, a mulher e a comunidade LGBT+. Como é sua atuação com relação a essas causas?
Sou professora de Direito Constitucional, com Mestrado em Direitos Fundamentais, sendo objeto de estudo justamente os grupos vulneráveis na sociedade. É daí que vem a minha paixão pela defesa dos grupos de pessoas que estão vulneráveis na sociedade. Além disso, como mulher, sempre senti na pele o quanto a sociedade é dura conosco. Atuo como advogada nos casos de mulheres em situação de violência - desde o primeiro atendimento, acompanhamento na Delegacia e no processo judicial. Além disso, atuo na área de família em geral, nas ações de divórcio, guarda e alimentos.
No que tange à comunidade LGBT+, sou sensível às pautas porque entendo que a minha felicidade depende da felicidade das outras pessoas e porque não é difícil para mim de ver que algo precisa ser feito. Além disso, boa parte dos meus alunos e dos meus clientes são pessoas da comunidade LGBT+.
 
Caren, especificamente sobre os direitos da mulher, muito já foi feito. Esse inclusive, é um assunto que sempre está em debate. No entanto, na sua visão, o que falta? Como a justiça e a sociedade podem contribuir para que as mulheres efetivamente tenham seus direitos protegidos e garantidos?
Falta termos mais mulheres legislando, governando as cidades, os Estados e o País; falta termos mais mulheres no comando de empresas públicas e privadas; falta a efetivação das leis que já estão em vigência. As mulheres precisam estar na política partidária, seja se candidatando, seja apoiando outras mulheres. É necessário que a pauta das mulheres deixe de ser um discurso e passe para a prática da país.

 

E com relação a comunidade LGBT+? Sabemos que o preconceito existe, no entanto, como a você avalia essa pauta?
A pauta LGBT+ é urgente, uma vez que o Brasil é o País que mais mata pessoas que fazem parte da comunidade LGBT+. A questão é: são pessoas, somos pessoas, estamos juntos. Existem duas chagas sociais que precisam ser combatidas para que possamos avançar nas pautas relacionadas a gênero: o racismo e a desigualdade social. Ao meu ver esses dois fenômenos são as raízes do machismo, da homofobia, da misoginia e do sexismo.

 

Caren, quem quiser conhecer mais sobre o trabalho e suas linhas de atuação, como pode te encontrar? Deixe seus contatos.
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