SAÚDE | Entrevista

Neusa Mazzola enfrentou o Câncer de Mama e afirma: “Eu já tive medo, hoje tenho história”
“Se tem uma coisa que eu sempre falo para as mulheres, desde que eu fui diagnosticada, é para que não se deixem para depois. Se priorizem..."



Primeiro surgiram sangramentos na gengiva, depois veio o cansaço físico, a dor no braço direito e um pequeno nódulo na mama. Nesse momento, o sinal de alerta já havia ligado e Neusa Mazzola já estava buscando ajuda. O diagnóstico de Câncer de Mama foi confirmado em fevereiro de 2020 - quase junto com o início da pandemia da Covid-19, a partir daí, foram meses de luta.
 
“Foi um choque muito grande! No momento do diagnóstico veio o desespero, o medo e a insegurança tomou conta. Desanimei muitas vezes. O que mais me motivava para seguir era meu filho, que é minha razão de viver e lutar,”  afirma a psicóloga que reside em Xaxim, no Oeste Catarinense.



Hoje, Neusa Mazzola segue em tratamento. “Faço uso de hormonioterapia, um tratamento diário que a gente precisa tomar por cinco anos. Então, dizer que estou livre, gostaria muito, mas a certeza absoluta eu não tenho. Pelos últimos acompanhamentos médicos que foram feitos e conforme os últimos exames, está estável, não evoluiu.”

Mesmo em tratamento contra o câncer, Neusa ergueu a bandeira da prevenção e segue ajudando outras mulheres e organizações, à exemplo da Rede Feminina de Combate ao Câncer. “Se tem uma coisa que eu sempre falo para as mulheres, desde que eu fui diagnosticada, é para que não se deixem para depois. Se priorizem, sejam sua prioridade, porque no momento do tratamento a gente pode ter família, amigos, parceiros, filhos, enfim...  Mas a gente precisa lutar sozinho, mesmo que as pessoas estejam ao nosso lado,” afirma a psicóloga.

Neste mês, dedicado a campanha Outubro Rosa, confira a entrevista completa com mais essa batalhadora:
 

Neusa, fale sobre você: Onde nasceu, onde cresceu, onde reside, sobre sua família...
Sou natural de Xaxim, morei no interior do município, no distrito da Anita Garibaldi, até os 23 anos. Atualmente moro na cidade. Minha família também reside aqui e meu filho reside em Chapecó.
 
Quando criança, com o que sonhava? Que profissão pretendia?
Quando eu era criança eu tinha o sonho de ser modelo. Sempre fui muito alta e magra e me imaginava assim. Ao longo dos anos desejava ser professora, tinha minha professora de primeira série que era minha fonte de inspiração, ela se chamava Marinete. Era tão doce e tão amável.

 

Hoje, você é psicóloga. Como decidiu por essa área?
Sim, hoje sou psicóloga! Depois de ter trabalhado anos na área da costura, eu percebia que as pessoas precisavam muito de ter alguém para desabafar, contar seu dia a dia, suas dificuldades... Fui vendo que eu tinha esse dom, esse talento para ouvir as pessoas e tentava amenizar o sofrimento delas.  Foi a maior escolha que eu fiz na minha vida em relação à minha profissão. Eu também passei longos anos por um quadro depressivo e eu tive depressão. Isso me fazia ter empatia com a dor dos outros e aí, só aos 38 anos de idade, foi onde eu fiz a escolha por cursar Psicologia.
 
Agora, vamos falar sobre saúde. Antes do diagnóstico do câncer de mama, como era sua rotina de autocuidados com a saúde?
Sempre fui uma pessoa que fazia os exames de prevenção. Sempre que eu sentia algo diferente, eu ia ao médico - até porque, eu vinha de uma rotina de estar mais próxima das Unidades de Saúde, por causa dos anos que eu passei com depressão. Quando eu descobri o diagnóstico, eu vinha de um ano que não havia feito o exame, isso, devido aos cuidados que eu tive com o meu pai, que veio a falecer naquele mesmo ano. Então, eu passei dois anos sem fazer o exame de prevenção nas mamas.
 
Quando foi que você teve o diagnóstico de câncer de mama? Como descobriu a doença?
Eu tive o diagnóstico em fevereiro de 2020. Eu descobri a doença por ter alguns sintomas que não pareciam ser sintomas relacionados ao câncer de mama. Comecei a ter, ainda no mês de abril de 2019, um sangramento na gengiva. Eu achei muito estranho, fui ao dentista e ele me solicitou uma bateria de exames.
Fiz esses exames na Unidade de Saúde, mas não foi detectado nada. Mas eu continuava com aquele sangramento na gengiva. Então, comecei a me sentir cansada fisicamente. Eu conseguia fazer as minhas atividades, porém sempre me sentindo muito cansada.
No mês de setembro de 2019, decidi começar uma atividade física, achando que era sedentarismo. Comecei a fazer Pilates, porém eu não conseguia fazer as atividades, me sentia extremamente cansada, sem resistência e sentia muita dor no braço direito e na mama direita. Em um dia, durante o banho, eu fiz o toque e percebi que eu tinha nódulo. Isso foi no mês de novembro 2019. Eu já busquei a Unidade de Saúde para a enfermeira fazer uma avaliação. Naquele instante, já fui passada para o médico ginecologista, que também faz uma avaliação e me pediu mamografia.
Quando vieram os resultados, eles acharam que não era grave. Naquele mesmo mês, eu seguia não me sentindo bem e voltei para Unidade de Saúde. Outra médica me atendeu e percebeu que eu deveria buscar um mastologista. Fui encaminhada e avaliada por uma mastologista que me pediu alguns exames, uma punção e depois uma biópsia, na qual saiu o diagnóstico de um carcinoma maligno da mama.
 
Acredito que a descoberta de um câncer foi um choque. Como você reagiu e como reagiram seus amigos e familiares?
Foi um choque muito grande! No momento do diagnóstico veio o desespero, o medo a insegurança tomou conta. Todos ao meu redor se impactaram, alguns negavam e diziam: “vamos orar, que não é nada”. Acredito ser normal de cada um com a aceitação.
 
Por algum momento você se culpou, achando que poderia ter feito algo diferente?
Sim, mas logo entendi que se o propósito era esse, para evoluir, eu precisava passar por esse desafio, até porque o câncer me tinha, mas eu não tinha ele. Era uma luta que eu tinha certeza que seria a vencedora.

 


Como foi o início do tratamento? Onde você tratou a doença?
Passei por cirurgia para retirada dos tumores e assim que me recuperei fui para a etapa de quimioterapia e radioterapia. Meu tratamento todo foi pelo SUS, no Hospital Regional do Oeste, em Chapeco, que é referência em Oncologia.
Não foi necessário a retirada da mama, só foi removido o quadrante onde estava alojado o tumor.
 
Como seu corpo reagiu ao tratamento? E o fator emocional?
Me senti muito debilitada. Precisei me afastar das atividades laborais. Sentia muitas reações da quimioterapia. Sentia enjoo, fraqueza, falta de ar, tonturas e muita náusea e vômitos. Na radioterapia foi pior. As queimaduras da radiação e os efeitos colaterais eram fortes, mas consegui também concluir. O meu emocional sempre conseguia estabilizar. Tinha recaídas, desânimo, desesperança... mas o acompanhamento psicológico semanal me fortalecia para continuar o tratamento. Essa base psicológica, foi essencial no meu tratamento.
 
E a perda de cabelos Neusa? Normalmente as mulheres têm muito apresso pelos cabelos e eles são um símbolo da feminilidade. Como foi esse processo de perder os cabelos?
Falo com propriedade que foi muito doloroso. Achava difícil ver as pessoas que amo, tentando disfarçar o impacto de me ver sem cabelos. As lágrimas de dor vinham, mas fui percebendo que isso era só um apego. E que estar carequinha, também tinha uma beleza escondida e que eu jamais tinha percebido. Consegui amenizar minha dor com mais tranquilidade. Mas o impacto do momento quando começou a cair descontroladamente os cabelos, é muito marcante.

 


Durante o tratamento, você desanimou?
Desanimei... Muitas vezes. Mas no dia seguinte, me fortalecia e seguia. Precisava me recuperar porque sempre tinha alguém que precisava de algo e eu podia contribuir. Além de eu querer viver mais e me curar. Sou muito resiliente e acredito que ser assim, contribuiu muito para a minha recuperação.
 
O que te motivava a seguir?  
O que mais me motivava para seguir era meu filho, que é minha razão de viver e lutar. Eu precisava me curar, eu precisava ser forte, vencer por amor a ele e claro por amor a mim também.
Também na minha mãe e nos meus irmãos. A gente precisa ter algo que nos dê segurança e eu encontrava isso na minha mãe e nos meus irmãos. Essa base forte, eu tinha. Era neles que eu me espelhava todos os dias para conseguir vencer. Foram momentos que eu precisava sair da cama e me alimentar e ter força para encarar todo esse processo.
Precisava honrar meu pai, fazendo diferente. Ele lutou até o último segundo de vida, sofreu muito mais e não desistia e isso também me motivava a lutar. Eu pensava: “se ele superou as dores e lutou incansavelmente, eu também iria conseguir.”

 


Hoje, você está livre do câncer?
Infelizmente livre a gente não sabe se está, mas está estabilizado. Pelos últimos acompanhamentos médicos que foram feitos e conforme os últimos exames, está estável, não evoluiu. Eu me mantenho em tratamento. Hoje, faço uso de hormonioterapia, um tratamento diário que a gente precisa tomar por cinco anos.
Então, dizer que estou livre, gostaria muito, mas a certeza absoluta eu não tenho. Mantenho a fé e a esperança que eu esteja livre. No entanto, para nós, que somos portadores dessa doença, a gente nunca sabe o dia de amanhã. Dizer que estou livre, é uma vontade muito grande, mas a gente sempre está em alerta.
 
Atualmente, como é sua rotina de exames e cuidados?
Atualmente faço acompanhamento a cada seis meses com oncologista e a cada ano com mastologista. Me cuido muito na alimentação, ainda tenho dificuldades para fazer atividades físicas, mas já me desafiando para melhorar. É importante ter cuidados saudáveis para não ter a reincidência.
 
De todo o processo, desde o diagnóstico até o final do tratamento, qual foi o momento mais difícil?
Tudo é difícil, porque era algo que eu não conhecia. Mas ficar longe do meu filho, por causa da pandemia e os riscos de contágio do coronavírus, foi a parte mais difícil. Não conseguir abraçar ele, era muito doloroso.
 
Hoje, olhando para tudo que você passou, como você avalia sua trajetória?
Hoje, olhando para trás e tudo que eu vivi, me sinto privilegiada por conseguir olhar para mim e ter a certeza absoluta, que nada é impossível, principalmente quando se acredita na nossa força e na coragem de lutar. Não somos mulheres invencíveis, mas somos mulheres que inspiram outras mulheres a vencer, até o dia do ponto final. Acredito ter sido escolhida para passar por toda essa trajetória. Mudei meu modo de ser, jamais me queixo de algo, mesmo em momentos de desespero. Agradeço por poder renascer e evoluir.
 
Neusa, sabemos que o Câncer de Mama, infelizmente atinge muitas mulheres. Em relação à prevenção, o que você pode falar para quem está acompanhando essa entrevista?
Se tem uma coisa que eu sempre falo para as mulheres, desde que eu fui diagnosticada, é para que não se deixem para depois. Se priorizem, sejam sua prioridade, porque no momento do tratamento a gente pode ter família, amigos, parceiros, filhos, enfim...  Mas a gente precisa lutar sozinho, mesmo que as pessoas estejam ao nosso lado.
A medicação, os efeitos que a gente sente, são só nossos e se puderem evitar passar por esse processo, se priorizem. Isso, é hoje, como se fosse uma regra para viver. Sou minha maior prioridade, porque quando eu estou bem, se eu me cuido, eu posso fazer parte da minha família, dos meus amigos, sem sentir a dor que eu precisei passar.
 
E sobre o enfrentamento ao câncer? Sabemos que ninguém está livre, por isso, o que você pode dizer para quem está lutando contra essa doença?
Nós mulheres, sabemos que nós somos vencedoras, nós sentimos, choramos, sofremos, mas estamos evoluindo constantemente. Toda vez que bate aquele desânimo, um momento que parece que não vamos dar conta, percebemos que somos muito fortes. E é essa força que vem de dentro, que nos dá motivação para enfrentar... que nos faz querer acordar todos os dias de uma forma melhor.
Então, quem sou eu para dizer qualquer coisa para alguém que está passando por isso? Cada uma sente de uma forma diferente. Só a certeza de que há muita vida além do câncer e sei que como eu, cada uma tem suas batalhas internas para elaborar. Não importa quantos anos viveremos, mas fazer desses anos, os melhores possíveis. Tenho uma convicção de que passar por câncer, também é um renascimento, uma oportunidade de nos amarmos bem mais.
 
Estamos no outubro Rosa – uma campanha mundial de conscientização sobre a importância da prevenção. Você acredita que os mecanismos de informação e alerta que existem, são suficientes?
Eu acredito que são suficientes. Temos as mídias, tanto TV, rádio, jornais, revistas e um leque de informações. No entanto, vale lembrar que a busca desesperada por informações, não resolve nada, se a mulher não aprender a se tocar e se conhecer. Só assim, vamos identificar se houver algo mudando no corpo, porque nem todo câncer tem sintoma de dor. A grande maioria, é silencioso, por isso, vale ficar em alerta sobre sintomas que habitualmente não sentimos.
 
E sobre o acesso ao tratamento? As mulheres vítimas do câncer de mama, possuem tratamento adequado? Ou ainda é preciso evoluir em algum ponto?
Sim, os cuidados e atenção mudaram muito em todas áreas de saúde, quando o diagnóstico é câncer - falo do SUS, que foi onde eu me tratei - tanto Secretaria de Saúde, como o Hospital Regional, possuem um bom atendimento. Todos os profissionais são muito prestativos e preocupados. Eu digo que mesmo em meio a uma pandemia, tudo evoluiu muito.
 
Hoje, enquanto psicóloga, você tem ajudado ou pode ajudar outras mulheres que passaram por esse problema? Tudo isso, acabou te fortalecendo profissionalmente?
Eu sempre procuro formas de ajudar, também de forma voluntária. Em 2020, mesmo com o processo do tratamento, eu criei um projeto que ajudava com recursos, a Rede Feminina da nossa cidade de Xaxim. Juntei recursos com um projeto, para que a Rede pudesse utilizar da melhor da melhor forma possível. Neste ano de 2021, estou participando também em parceria com uma colega, do projeto do Reiki Solidário - uma terapia holística reconhecida pelo SUS  que a gente também está aplicando voluntariamente para as pessoas. É uma forma de ajudar e contribuir com a sociedade.
Com certeza, isso me deixou uma profissional muito mais fortalecida. Com um olhar ainda mais humanizado, sempre preocupada com os meus pacientes, com as pessoas que estão ao meu redor.
Também deixo minha gratidão, com as pessoas que me acompanham em rede social. Muitas nem me conhecem pessoalmente e se inspiram e enviaram orações e energias de cura. O olhar hoje, sobre o câncer, é diferenciado e eu só cresci como profissional, como ser humano. Enfim, toda essa parte de ter empatia, ter compaixão, aprendi a me amar também de forma diferente. Fortaleci minha fé, porque é na fé que conseguimos avançar as barreiras que encontramos e a certeza absoluta que há muita vida além do câncer. Finalizo com uma frase que hoje é minha biografia para a vida toda: “Eu já tive medo, hoje tenho história,” porque Deus é bom o tempo todo, basta acreditar que tudo é possível ao que crê. A cura acontece, até que seja o dia de partirmos e deixar o nosso legado para quem ficar. O que importa é nunca desistir das lutas.
 
Neusa, como as pessoas podem te encontrar? Deixe seus contatos.
As pessoas podem me encontrar através das redes sociais, tanto no Instagram quanto Facebook é só procurar por Neusa Mazzola, é meu WhatsApp 49-98416-6424. Eu também atuo no meu consultório, na Avenida Luiz Lunardi, nº 532, no centro de Xaxim.
 





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SAÚDE  |   07/10/2021 20h28