COMPORTAMENTO | Entrevista

Lute como uma gorda! É o que defende Malu Jimenez
A professora, filósofa e doutora lançou um livro sobre o assunto: a primeira edição já está esgotada.



A gordofobia está presente no cotidiano das pessoas. “Sempre me intrigou o ódio que existe das pessoas gordas, a falta de respeito, dignidade e humanidade,” explica Malu Jimenez. A professora abordou esse assunto na tese de doutorado: “Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos,” conteúdo que virou livro, com a primeira edição esgotada.

Malu é professora, filósofa, doutora, ativista, escritora e estudiosa do corpo gordo. A moradora de Chapada dos Guimarães - MT, é filha de espanhóis. Casou aos 13 anos de idade. Aos 17 anos resolveu fazer supletivo, pois ela queria estudar - para isso, precisou trabalhar e morar sozinha.
 
Hoje, Malu defende: “Os impactos da gordofobia são profundos e cruéis. As pessoas gordas sofrem desde seus nascimentos até suas mortes, todos ou quase todos os dias de suas vidas. Não tem como sanar essas marcas, mas tem como entender que a culpa não é nossa, e sim de uma sociedade cruel e violenta.”
 
Confira a entrevista completa!

 
Como podemos mudar esse pensamento social com relação as pessoas gordas? Você acredita que é possível mudar essa postura?
Para mudar essa estrutura, é preciso que os estudos e ativismo das corporeidades gordas apareçam, falemos sobre o assunto. Que as pessoas gordas comecem a denunciar quanta violência existe na gordofobia. É preciso disciplinas nas formações que proponham pensar corpos dissidentes. É preciso detectar a gordofobia dentro de nós, para que a gente consiga ressignificar isso em nós e depois reverberar em nossas vidas cotidianas, profissionais, etc.
 
Conte um pouco sobre você. Quem é a Malu?
Nasci em 1971, na Bela Vista, São Paulo capital. Terceira filha de quatro meninas. Filha de Antônia Jimenez Bertelli e Luis Jimenez Lupiañez, imigrantes espanhóis fugindo da pobreza.
Moramos até meus três, quatro anos, no centro de São Paulo e mudamos para o Butantã, Bairro São Francisco, onde vivi toda minha infância até os nove anos, quando meus pais entraram numa seita - Universo em Desencanto e mudamos para o Rio de janeiro. Aos 13 anos casei na seita com um homem 13 anos mais velho que eu e com 17 anos voltei para São Paulo. Morando sozinha em pensionatos, trabalhei de babá, vendedora, fiz supletivo, porque na seita não tinha escola. No ensino médio fiz secretariado, para ter trabalho. Trabalhei três anos na SABESP, como estagiária de secretária e no terceiro ano, conheci um professor de filosofia que me deu alguns livros e prestei vestibular na UNESP, em Filosofia, onde passei e fui morar em Marília - interior de São Paulo. Em 1998 me formei e fiquei entre Assis e Marília, estudando Literatura Comparada.
Em 2000 voltei para São Paulo e comecei a lecionar no Estado, no litoral norte de São Paulo - Bertioga, onde fiquei morando durante sete anos. Voltei para São Paulo, no Bairro Praça da Árvore, morando com uma amiga, me inscrevi em um edital para filhos de espanhóis, para estudar na Espanha e passei.
Fui fazer doutorado em Antropologia Cultural, homologuei meu título de Filosofia pela Universidad de Granada, conheci meu atual companheiro, morei alguns anos na Espanha e voltei para estudar Juventude Indígena, no Mato Grosso. Hoje, moro na Chapada dos Guimarães há 12 anos. Leciono filosofia, literatura, sociologia e redação. Fiz mestrado e doutorado em estudos de cultura contemporânea na UFMT. Defendi a tese “Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos,” que virou livro com a primeira edição esgotada.
 
Qual sua formação?
Filosofia na UNESP, mestrado e doutorado em estudos de cultura contemporânea na UFMT, pós doutorado em Psicossociologia na UFRJ.

 

Você é escritora, possui vários estudos, oferece assessoria, cursos e tem publicações ligadas ao estudo do “corpo gordo”. Realmente estamos falando de obesidade?
Existem dois tipos de estudos: da obesidade e estudos transdisciplinares das corporalidades gordas, eu pesquiso as corporalidades gordas. Os estudos do corpo gordo são estudos que se iniciam na década de 1970, junto ao Ativismo Gordo, nos USA e hoje existem pesquisadores no mundo todo, inclusive no Brasil e América Latina. Esses estudos propõe um novo olhar, uma revisão epistemológica aos saberes que patologiza os corpos gordes, no caso a “obesidade”. Propomos um rompimento de paradigma, no qual se olhe as corporeidades gordas de forma mais humana e legitima. Que escutem essas pessoas, que entendam que considerar corpos gordos como corpos doentes, é a base do estigma da gordofobia.

Malu, o que te instigou a se dedicar por esses estudos?
Sou uma mulher gorda e sempre me intrigou o ódio que existe das pessoas gordas, a falta de respeito, dignidade e humanidade no trato a essas pessoas, no caso eu também. No mestrado, pesquisando saberes e sabores subalternos na relação entre mulheres patroas e domésticas, em Chapada dos Guimarães, comecei a perceber que todas minhas entrevistadas estavam focadas com o tema do emagrecimento, mesmo as magras, mas principalmente as gordas. Era uma obsessão. Todas se organizavam em torno a não engordar ou emagrecer. Isso me levou a perceber que existia um fenômeno em relação a gordura. Em 2014 não se ouvia falar sobre gordofobia como agora, então comecei a estudar na gringa e me deparei com estudos sobre gordofobia e tudo começou a fazer sentido para mim. A partir dessa descoberta, tenho estudado ferozmente esse tema (risos).
 
Sabemos que existe preconceito e existem dificuldades. Você acompanha de perto, avalia e estuda esse assunto, por isso, o que você pode dizer sobre o tratamento dado para pessoas acima do peso? É possível dimensionar o preconceito?
“A gordofobia é uma discriminação, preconceito que leva à exclusão social e nega acessibilidade às pessoas gordas. Este estigma é estrutural e cultural, transmitido em muitos e diversos espaços e contextos sociais na sociedade contemporânea”. (JIMENEZ-JIMENEZ, 2020, p. 2).
Sendo assim, a gordofobia está presente no cotidiano das pessoas, causando dificuldades em enfrentar esse estigma, que acaba estando presente na própria resistência social de reconhecer esse preconceito. Isso acaba acontecendo, porque a sociedade em geral, acaba aceitando a intimidação e censura quem está acima do peso. Observações constrangedoras sobre o que a pessoa gorda está comendo, empregando comportamentos intrusivos como justificativas para uma falsa preocupação com a saúde do indivíduo acontecem no cotidiano dessas pessoas muito mais do que se assume.
Além do que, a própria preocupação com a saúde de quem é gordo já demonstra indícios de gordofobia, uma vez que se assume que aquele sujeito tem problemas de saúde só por estar acima do peso, enquanto pessoas magras não são abordadas e questionadas a respeito de seus níveis de pressão arterial, por exemplo. Infelizmente, acontece que, culturalmente quem é magro é visto inicialmente como saudável independente de outros fatores.
Sempre é possível ressignificar o preconceito quando estudado, pesquisado e percebido como violência. Tenho dedicado meus estudos, pesquisas, vida, porque acredito que daqui algum tempo as pessoas comentarão: - Nossa, como podiam tratar as pessoas gordas daquele jeito?
 
Malu, em suas redes sociais, você apresenta depoimentos de pessoas que sofrem com um preconceito, que na maioria das vezes é visto com “naturalidade” pela sociedade. Como por exemplo, o fato de não ter cadeiras ideais para pessoas com obesidade. É possível dimensionar os impactos causados por essas formas ‘quase veladas de preconceito’, para quem sofre com isso?
Eu trabalho com depoimentos. É preciso ouvir o que as pessoas gordas pensam, falam, sentem, sofrem. Elas são as protagonistas de suas vidas e histórias, dores e afetos. Apesar de sermos 57% da população mundial, a sociedade não é feita para nós e essa falta de acessibilidade também é gordofobia.
Os impactos são profundos e cruéis com as pessoas gordas que sofrem com a gordofobia, desde seus nascimentos até suas mortes, todos ou quase todos os dias de suas vidas. Não tem como sanar essas marcas, mas tem como entender que a culpa não é nossa, e sim de uma sociedade cruel e violenta que é a nossa. Na verdade, quem está doente é nossa sociedade. Veja como nos tratamos, trabalhamos, não é uma sociedade saudável, não é mesmo?

 

Como podemos mudar esse pensamento social com relação as pessoas gordas? Você acredita que é possível mudar essa postura?
Para mudar essa estrutura, é preciso que os estudos e ativismo das corporeidades gordas apareçam, falemos sobre o assunto. Que as pessoas gordas comecem a denunciar quanta violência existe na gordofobia. É preciso disciplinas nas formações que proponham pensar corpos dissidentes. É preciso detectar a gordofobia dentro de nós, para que a gente consiga ressignificar isso em nós e depois reverberar em nossas vidas cotidianas, profissionais, etc.
 


Estudo do corpo gordo. Quem quiser conhecer mais sobre seu trabalho, seus estudos, seus cursos... como pode fazer? Deixe seus contatos.
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