EDUCAÇÃO E CONHECIMENTO | Entrevista

Dia Nacional do Rádio com Maria de Fátima e a rádio que só “toca livros”



Possibilitar que pessoas cegas tenham acesso ao conteúdo de livros. Isso é possível através da gravação das histórias e a criação de audiolivros. Foi isso o que propôs a catarinense Maria de Fátima Medeiros e Silva, ao criar o Projeto ReleiturasLivro Acessível. Hoje, o projeto conta com uma rádio on-line, que só “toca livros.”
 
Maria de Fátima explica que o projeto iniciou em 2017, quando ela estava no curso de Letras Português da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). A intenção foi promover a acessibilidade e a inclusão social, através da produção de audiolivros de literatura, em formato de radionovela. Atualmente a criadora do projeto avalia que o trabalho tem feito a diferença na vida de muitas pessoas com deficiência visual, baixa visão, dislexia, analfabetos funcionais e analfabetos, com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA), e também idosos e pacientes de hospitais.
Mas quem financia todo esse trabalho? Quem grava as histórias dos livros? Quem mantem a rádio on-line? A resposta para todas as perguntas, é a mesma: Voluntários, pessoas que doam a própria voz, o tempo e os recursos financeiros para cobrir todas despesas.

Neste dia 25 de setembro - Dia Nacional do Rádio e data que lembra o nascimento de Roquete Pinto, considerado o “Pai do Rádio Brasileiro”, vamos conhecer a rádio on-line do Projeto Releituras. Confira os detalhes na entrevista com a idealizadora do Projeto Releituras, Maria de Fátima Medeiros e Silva.

 
Para começar, explique o que é um livro acessível? Qual a finalidade dele?
Livro acessível é todo livro produzido para pessoas que possuem limitações de leituras. Por exemplo: livro em braille, e-book e pdf (mas este pode ser lido pelos softwares de leitura). Mas outro recurso, é o áudiolivro. Durante 100 anos de existência a fundação Dorina Nowill produziu áudiolivros de maneira amadora. Qualquer pessoa podia se voluntariar e ler os livros. O importante era transformar este livro para um formato mais acessível. Esse formato mudou a história da acessibilidade no mundo, pois esse formato atende não apenas pessoas de baixa visão e cegas, mas um grupo de mais de 82 deficiências visuais (algumas não reconhecidas como deficiência visual), que impedem uma pessoa de ter autonomia para ler qualquer tipo de material impresso (livro, bula de medicamento, jornais, etc).
Em 2017, eu reinventei esse formato. Comecei a gravar literatura brasileira, de domínio público em formato de rádio novela. Em 2020 o programa do Luciano Huck, no quadro The Wall, me descobriu. Em janeiro, o primeiro The Wall apresentou minha proposta para o mundo.
 
O que é o projeto Releituras? Como ele surgiu e qual o objetivo?
O projeto é independente e trabalha com a produção de áudiolivros direcionados a promover a acessibilidade de comunicação e vincular está acessibilidade através da tecnologia disruptiva da rádio difusão, o que coloca o rádio como principal meio de comunicação para entrega de conteúdos escolares. A internet chega a 60% dos brasileiros em idade escolar, enquanto que independente da condição social, todo brasileiro tem um rádio em casa. Durante a pandemia, países como Nepal e Guine Bissau, não interromperam as aulas pois os conteúdos foram distribuídos via rádio (de pilha), doados pela Unesco, enquanto isso mais de 23 milhões de brasileiros, ficaram esperando a doação de computadores ou de um chip de celular para ter acesso a conteúdo escolares. Estou aqui produzindo material acessível desde 2017, pagando o streaming da rádio do meu bolso para levar acessibilidade e informação, principalmente para pessoas cegas, que no período da pandemia, não podem usar braille ou CDs. Estou buscando investidores sociais, que possam ajudar a levar esse projeto para o Brasil inteiro, sendo Santa Catarina o Estado pioneiro.
 
A iniciativa tem o apoio da Biblioteca da UFSC, é isso?
A iniciativa tem 100% de apoio da Biblioteca da UFSC e do Laboratório de Rádio do curso de Jornalismo da UFSC. A Joana da Biblioteca, o Peter e o Roque da Rádio Ponto e a Agecom sempre apoiaram o projeto.
 
Quem produz os áudios? São locutores profissionais?
Os áudios são produzidos por pessoas comuns, que sempre doam suas vozes, obviamente recebem um treinamento, inclusive com uma fonoaudióloga para que aprendam a cuidar da saúde da voz. Também há locutores profissionais que estão dado sua contribuição ao projeto. Porém, o projeto aceita todos os tipos de vozes e sotaques. Fazemos peças "originais" e não tem coisa melhor do que ouvir um sotaque manezinho, ou mineirinho lendo um livro. Queremos que os ledores, ao doar a voz, descubram como é linda essa diversidade de sotaques do Brasil.
 
Atualmente, existem muitos voluntários? Pessoas que doam sua voz e seu tempo para a gravação de áudiolivros?
Atualmente estamos em baixa. Já chegamos a ter 300 voluntários, mas a pandemia e os problemas atuais, afastaram algumas pessoas. Mas, como sempre aceitamos novos voluntários. As vozes vão sendo renovadas.
 
Quem pode se candidatar como voluntário? Quais são os critérios? Existe uma capacitação para os voluntários?
Qualquer pessoa que tenha paixão por leitura e voluntariado. Treinamos qualquer pessoa que queira ser voluntário. São oito oficinas que os deixa prontos para uma leitura quase profissional. Esse treinamento está sendo feito on-line no momento.
 
É um trabalho grande e que tem custos. Quem financia o trabalho? Como sobrevive esse projeto?
Sim, temos custos de deslocamento e manutenção de equipamentos usados na edição.  Pagamos tudo do próprio bolso. Já tentamos vaquinha virtual, mas não tivemos muito sucesso. Precisamos que grandes empresas se sensibilizem com a causa. Há alguns meses, fiquei desempregada e impossibilitada de pagar o streaming da rádio duas vezes, até que apareceu uma alma boa e ajudou.
 
E o público? Você consegue dimensionar o público que prestigia o trabalho do projeto?
Sim, o streaming vai para o Brasil inteiro, já recebi até comentários de fora só país, América do Sul e Europa. Pessoas que gostam da língua portuguesa falada no Brasil e de literatura brasileira.
 
Quem quiser conhecer mais sobre o Projeto Releituras e ouvir a programação da rádio, como pode fazer? Deixe os contatos.
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