ARTE E CULTURA | Entrevista

Conheça a Lize Souza – Atriz reconhecida por interpretar a heroína Anita Garibaldi


Foto: Agência AL - Especial O BICENTENÁRIO DE ANITA GARIBALDI

O mais recente trabalho de Lize Souza é a série documental da NDTV Record, “Anita: amor, luta e liberdade”, que estreou no final de agosto. Antes disso, outro trabalho de expressão, foi o filme Anita - com mais de meio milhão de visualizações no YouTube. Seja nos palcos, TV ou no cinema, Lize tornou-se reconhecida como a atriz que mais interpretou a heroína catarinense Anita Garibaldi.
 
A atriz é natural de Laguna (da mesma forma que Anita Garibaldi). Lize Souza é uma mulher encantadora, forte, corajosa, guerreira, diplomática... Segundo ela mesma, características muito parecidas com o perfil da heroína catarinense.
 
“Eu nasci aqui na cidade de Laguna, mas com 20 anos fui morar no Rio de Janeiro, onde residi por treze anos, para me dedicar aos estudos e a carreira de atriz. Voltei para Laguna em 2020, quando começou a pandemia. Estou residindo e trabalhando aqui em Laguna, em função do ano do bicentenário de Anita Garibaldi” - Os 200 anos de nascimento da heroína foram lembrados no último dia 30 de agosto.
 

Em entrevista exclusiva para o Sou Catarina, Lize Souza dá uma verdadeira aula sobre Anita Garibaldi, revela que sonha interpretar outras grandes mulheres, como personagens bíblicas, fala do desejo de fazer mestrado e doutorado na área da linguagem em sociedade e encontrar uma maneira de disseminar a história de Anita, através das cartas deixadas pela heroína. Confira!
 
Quais eram os teus sonhos de infância? Já se imaginava atuando nos palcos?
Meu sonho de infância era realmente ser uma grande atriz. Eu gosto muito do cinema. Eu gosto muito da linguagem cinematográfica, então eu queria ser uma atriz de cinema. Estudei para isso e me imaginava realmente atuando nos palcos, desde os seis anos de idade. Fiz teatro, fiz TV e fiz cinema. O cinema, de todas as artes é a que mais me encanta. Então esse era o meu maior sonho de infância, me tornar uma grande atriz de cinema. Hoje, eu tenho um grande sonho - por ser cristã, eu me converti em 2017 e criei uma verdadeira paixão pelas novelas bíblicas da Rede Record e isso faz parte dos meus sonhos: Interpretar as grandes heroínas bíblicas. Eu já trabalhei numa novela da Record – “Os dez mandamentos” e quero seguir minha carreira nesse segmento de trabalho.
 
Hoje, você coleciona inúmeros trabalhos: filmes, documentários, espetáculos de teatro... Você tem contabilizado quantos trabalhos já realizou?
Eu tenho por volta de 20 trabalhos, dentre eles teatro, cinema, TV e comercial. Mas a maioria dos meus trabalhos realmente é com cinema. E dentre esses 20, 22 trabalhos por aí, sete estão relacionados ao universo de Anita Garibaldi.
 

Você é reconhecida como a atriz que mais interpretou a heroína catarinense Anita Garibaldi. Como surgiu a primeira oportunidade de interpretar essa personagem?
Realmente eu não conheço uma outra atriz que tenha se dedicado tanto ao papel de Anita. A oportunidade surgiu de uma maneira muito inusitada. O senhor Adilson Cadurin, que era o autor do mega espetáculo teatral “A Tomada de Laguna”, estava dando uma entrevista - isso em 2003 - eu tinha 17 anos e estava ouvindo essa entrevista em casa. Ele falava que queria fazer algumas alterações no espetáculo, uma delas era mostrar a Anita em suas três grandes fases: aos 14 anos, aos 18 anos e aos 28 anos, quando ela morre na Itália. Ele disse que já tinha as atrizes que iriam compor Anita aos 18 e aos 28, mas ele não tinha ainda a atriz para fazer a Anita aos 14 anos. Eu, de posse dessa informação, sai correndo literalmente de casa - porque aqui em Laguna é tudo muito perto - fui até a rádio para falar com ele, só que quando eu cheguei na rádio, ele já tinha saído. Eu me lembro que depois ele estava aqui no Cine Teatro Mussi e eu me escondi dentro de um armário e esperei a minha vez de falar. Sai do armário e fui e fui conversar com ele. Ele ficou muito assustado, perguntou o que eu queria e eu disse: “olha, eu tô interessada. Ouvi agora na sua entrevista na rádio, que o senhor busca uma atriz para fazer a Anita aos 14 anos. Eu tenho 17 anos, mas eu me pareço com uma pessoa de 14 anos e eu estou interessada no papel de Anita.” Aí ele fez duas grandes perguntas para mim, ele disse: Você anda a cavalo? Eu falei: “Não, mas se o senhor me der um cavalo eu vou andar. Se o senhor me der um cavalo e me dar um tempo, eu vou aprender.” Depois ele perguntou se eu fazia teatro e se eu era atriz profissional e eu também disse não. Foi o único trabalho que eu disse não em todas as perguntas e mesmo assim fui selecionada.  Eu disse para ele que não era atriz profissional - era uma atriz amadora, mas que eu acreditava no potencial dos amadores, porque eles fazem por amor e não por dinheiro. Alguns anos depois ele disse que naquela conversa, ele identificou o espírito de Anita Garibaldi - alguém que realmente não sabia o que fazer, mas sabia que queria fazer e ele disse: “Ali eu vi a Anita, eu já tinha a minha Anita de 14 anos.”, Mas claro, ele me fez esperar alguns meses. Eu ganhei um cavalo e comecei a treinar, fazer a lida campeira... foram três meses e aí pude compor o papel de Anita Garibaldi. Aprendi andar a cavalo, aprendi todos os trejeitos da liga campeira e compus aí o personagem de Anita Garibaldi, ao vivo no espetáculo “A Tomada de Laguna.” A partir daí, não parei mais.
 
Ao todo, em quantos trabalhos já viveu essa Anita Garibaldi?
Ao todo foram sete trabalhos: Duas edições do espetáculo teatral “A Tomada de Laguna”; o longa metragem “A retirada”; depois eu fiz um longa Ítalo Brasileiro chamado “Anita Amor e História,” que foi o quarto trabalho; o quinto foi o longa Anita; o sexto foi um espetáculo teatral em 2019; e o sétimo trabalho é essa série documental que a Rede Record está produzindo lindamente, uma baita produção em torno desse universo de Anita, do qual eu tenho muito orgulho em ter participado e ter sido escolhida para viver essa personagem outra vez.



Um dos seus mais recentes trabalhos, foi a série documental – sobre Anita Garibaldi. Conte um pouco sobre esse trabalho.
A cada trabalho de Anita eu sempre acho que o último que eu fiz é o que me consagrou. Antes desse trabalho, eu tinha feito o “filme Anita” que foi uma explosão - agora a gente já está contando com quase 600 mil visualizações! São mais de meio milhão de visualizações no YouTube. Eu achava que tinha sido o longa Anita que havia me consagrado, mas a série documental da Rede Record, é algo extraordinário em termos de produção, em termos de valor agregado, valor cultural, valor histórico... É algo que vai ficar para a posteridade. É um trabalho do qual eu me orgulho muito. Isso porque, pela primeira vez, eu faço um trabalho que é conduzido pela visão da própria Anita sobre si mesma, sobre o que ela passou. É o primeiro trabalho que eu faço, baseado nas cartas que ela escreveu, algumas que ela ditou, outras que ela mesma escreveu. Então é a primeira vez que eu vivo essa proposta: Anita por si mesma e o ponto de vista dela, sobre as batalhas que viveu, sobre as tragédias que ela presenciou, grandes momentos muito dramáticos e de guerra. Então, é o primeiro trabalho que tem um olhar dela e isso foi muito gratificante, porque é uma Anita que eu sempre quis viver. Essa Anita que olha para si mesma, que olha através do seu viés e a Rede Record me deu essa possibilidade, esse verdadeiro presente ao compor a Anita Garibaldi para essa série documental maravilhosa.
 
Neste ano ainda terão outros trabalhos com a personagem Anita?
Neste ano nós estamos contando com a possibilidade do retorno do espetáculo “A Tomada de Laguna.” Caso ele retorne, nós vamos encená-lo em novembro, que é muito interessante essa data porque Anita foi a mãe da república. Por onde ela passou, o regime republicano se estabeleceu e nós vamos apresentar o espetáculo no final de semana que antecede o feriado da Proclamação da República, no dia 15 de novembro. Então caso a gente receba a resposta final de que o evento vai acontecer, eu vou me preparar mais uma vez para viver a Anita Garibaldi, de novo nos palcos, na arena ao vivo, a cavalo com todas as líderes campeiras e todos os desafios de viver uma personagem como essa, ao vivo, para as pessoas verem. Correndo o risco de levar um tombo a cavalo, correndo risco do cavalo empinar, dos boizinhos...(risos), são muitos animais em cena... Então, o maior desafio realmente é de conduzir toda essa vida campeira, que como eu costumo brincar, é em 3D para todo mundo assistir. Bora se preparar psicologicamente, fisicamente para viver no Anita Garibaldi na arena.
 
No último dia 30 de agosto, foi comemorado os 200 anos de nascimento de Anita Garibaldi. E ter vivido essa personagem, por tantas vezes, certamente te fez conhecer
 muito da história da heroína catarinense. O que mais lhe chama atenção na trajetória dela?
O que mais me chama atenção na trajetória de Anita, é o fato de ela ter conseguido ser uma mulher detentora de um grande poder, sem ter perdido a feminilidade dela. É algo que é muito polêmico de se dizer, mas Anita foi uma grande revolucionária, ela foi um soldado. Garibaldi lhe via como um soldado, muito mais corajoso do que tantos homens que passaram pela vida dele, mas também uma mulher, uma mãe, uma esposa... Isso me encanta na trajetória de Anita. As coisas pelas quais ela passou, as coisas que ela presenciou... por exemplo, quando ela dita nas suas cartas que ela presenciou... (pausa). É difícil porque me emociona muito. A fuga na Picada das Antas. Quando ela diz que cerca de 100 ou 200 pessoas, atravessavam a Picada das Antas e eles tinham calculado que seria uma travessia de quatro dias, só que começou a chover torrencialmente, os alimentos começaram a acabar, porque a conta era para quatro dias. A travessia durou cerca de dez dias, uma semana a mais. Eles se perderam na mata. Eram pessoas que tinham trazido suas esposas, seus filhos, estavam fugindo realmente do império, do inimigo. Por acabar os mantimentos, eles começaram a morrer de fome, as crianças de dois, três anos morrendo de fome, morrendo de inanição. Então, alguns pais tomaram decisões muito difíceis, de matar realmente suas esposas, matar seus filhos e depois se matarem para não verem seus filhos entregues. É uma agonia tão grande e ela descreve isso numa carta e acho que isso é o que mais me chama atenção na trajetória dela. Ela ter vivido momentos de um drama sem tamanho. Eu não faço a mínima ideia do que é perder um filho, muito menos ter que matar o seu próprio filho. Uma dor tamanha e ela não perdeu o encanto de ser feminina, ela não perdeu a sua função bioquímica de amar, de propagar o amor, de propagar a luta por esse amor e por essa paixão, o amor pela liberdade. Não desistiu. Ela viu tudo isso e não desistiu. O resultado dessa não desistência, dessa resiliência é a Proclamação da República. É essa liberdade que hoje nós temos: homens, mulheres, negros, brancos, não podemos negar que muito já foi conquistado, há muito que conquistar, mas muito também já mudou. Então, essa série de renúncias e de sacrifício, não a impediu que ela fosse uma mulher, que ela fosse mãe, que ela entregasse amor por onde passasse. Não ficou traumatizada a ponto de encerrar a sua contribuição para causa republicana. Isso foi a parte mais encantadora na minha opinião, a respeito da saga de Anita Garibaldi.


É motivo de orgulho para você, interpretar alguém que nasceu na mesma cidade que você? Qual seu sentimento em relação à essa mulher que marcou a história?
Nossa, eu tenho muito orgulho. Se eu tenho motivo de orgulho por interpretar alguém que nasceu na mesma cidade que eu. Eu tenho muita gratidão por ter nascido aqui, por ter sido escolhida para viver essa mulher tantas vezes. Eu tenho um orgulho sem precedente. Por exemplo, nessa minha carreira de atriz, se alguém me perguntasse: “Lize, qual o papel que você ainda não viveu e você gostaria de viver?”, certamente eu diria: “gostaria de viver Anita Garibaldi” e isso, eu tenho o privilégio de já ter vivido. Tantos artistas ainda não conseguiram viver o papel dos seus sonhos e eu vivo o papel dos meus sonhos desde os 17 anos. Isso é o que mais me orgulha. Eu me lembro de uma época, quando eu tinha, por volta de 22, 23 anos e as pessoas brincavam que no meu currículo só tinha Anita e que eu tinha um currículo engessado e por muitos anos isso me incomodou. Na minha falta de maturidade, no meu processo de amadurecimento, isso me incomodou muito, porque eu queria às vezes fazer um papel como donzela apaixonada, em perigo e ninguém me dava um papel desse. Os papéis que surgiram a partir de Anita, foram de policiais da Polícia Civil, investigação de crime, tudo isso. Coisas muito semelhantes a natureza de Anita. Mas hoje eu entendo que não se trata apenas de interpretar a Anita, mas de defender o legado histórico cultural dela através da minha arte, através do empréstimo do meu corpo, da minha voz, das minhas emoções... Eu defendo o legado que a Anita deixou. Eu contribuo dessa forma para que a memória de Anita, o legado de Anita, não se não se perca. E eu me sinto muito orgulhosa de fazer Anita. Eu quero muito inspirar novas gerações a quererem que novas atrizes, outras meninas, queiram ser Anita e levem essa história adiante, porque ela merece. Ela lutou por nós, para que nós tivéssemos liberdade de fazermos o que quisermos e hoje, com essa liberdade, eu faço questão de entregar tudo que eu tenho para compor a melhor Anita que alguém puder assistir, puder se apaixonar.
 
Em Laguna há um museu que conta a história da heroína. Neste museu e em diversos espaços, há uma série de obras que retratam a imagem de Anita Garibaldi. Você considera que há semelhanças físicas entre você e ela?
Semelhanças físicas não. Sinceramente eu não me considero fisicamente parecida com ela, apesar de que na série documental a caracterização foi tão maravilhosa, que foi a primeira vez que eu me senti parecida com a Anita. Eu acredito que nas descrições, principalmente do pessoal que teve contato com ela na Itália, diziam que ela era uma mulher muito corpulenta. Acredito que o meu corpo é meio parecido com ela nesse sentido, com quadris largos. Mas eu sou mais branquinha. Ela era mais morena e tinha sardinhas, eu não tenho sardas. Acredito que o meu nariz é fininho como o dela, a boca também é pequena. Mas na Rede Record eu confesso que foi a primeira vez que eu me senti muito parecida com ela fisicamente. Foi uma caracterização brilhante e eu devo muito as meninas que me maquiaram e fizeram o penteado, que ficou muito parecido mesmo, eu fiquei muito feliz.
 
E em relação aos traços de comportamento e garra? Você se considera também uma mulher guerreira e que batalha pelos seus ideais?
Eu me considero uma pessoa que luta pelos meus ideais sim. E o fato de eu ter ido morar no Rio de Janeiro com 20 anos, fui muito inspirada pelo exemplo de Anita. Para correr atrás dos meus sonhos. Mas hoje, aos 35 anos eu também aprendi com a Anita - e é impressionante como ela também nos oferece esse aprendizado - eu aprendi a ser uma mulher mais comedida. Menos precipitada. Mais prudente e Anita era muito prudente. Eu tentei também absorver essas características, além da garra, além da coragem, da resiliência. Eu aprendi a absorver da personalidade dela, o momento certo de falar, de agir e recuar também - que é algo necessário. O recuo, ele só serve para que a gente impulsione as nossas forças para uma nova investida, seja ela na área que for, na questão dos nossos sonhos... As vezes nós precisamos reconhecer que não é o momento e isso eu aprendi com a Anita também. A Anita era muito diplomática e esse foi mais um traço que eu pude angariar da personalidade dela.
 

Seus trabalhos já comprovaram que você é uma artista completa, por isso, além de interpretar Anita Garibaldi, que outros objetivos e sonhos tem para sua carreira?
Como já falei, eu tenho um sonho de viver as grandes heroínas bíblicas da Rede Record. Eu sou apaixonada pela Bíblia, pelas narrativas bíblicas, eu queria poder usar também a minha carreira para falar do que Deus tem feito, de quem Jesus é e do seu legado na história. Falar também do legado dessas mulheres que poucas pessoas conhecem. A Bíblia conta a história de mulheres que realmente fizeram a diferença no seu tempo e eu queria contribuir dessa forma. Esse é o maior sonho na minha carreira, viver mulheres como Rute, como a profetiza Débora. Mulheres que às vezes não tem nem nome, mas que fizeram grande diferença. Esse é o meu maior sonho, seria o ápice da minha carreira. Trabalhar na Rede Record e como eu falei, eu trabalhei na novela “Os Dez Mandamentos”, eu fiz uma das esposas do Faraó Ramsés Terceiro, que foi o irmão de Moisés - esse foi o único trabalho que eu realmente fiz na Record e foi muito bom de fazer, fiz uma egípcia. Tenho também objetivos na vida acadêmica. Eu vou me formar em Letras, Português, Literaturas e pretendo seguir aí com mestrado e doutorado nessa área da linguagem em sociedade e encontrar uma maneira de disseminar a história de Anita, através de linguagem e através das cartas dela. Eu sinto que o meu trabalho está muito ligado a viver a vida de grandes mulheres que fizeram a diferença na história. Eu começo minha carreira com a grande Anita Garibaldi, mas tenho o sonho de viver outras mulheres. Eu sinto assim, é algo que vem de dentro de mim: Esse desejo de dar vida a grandes mulheres que contribuíram muito com a nossa história.
 
 
FILME ANITA:
www.youtube.com/w...eature=youtu.be



Confira o vídeo:






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