JUSTIÇA

Entrevista com Vivian Garcia Selig – A nova presidente da ADEPOL-SC

A Delegada de Polícia Vivian Garcia Selig é a mais nova presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Santa Catarina (Adepol-SC).
 
Vivian - formada em Direito, com especialização em Ciências Criminais, Gestão Pública e Direito das Mulheres - está há 15 anos na Polícia Civil catarinense. A delegada teve passagem por Joinville e pelo comando da 5ª Delegacia Regional de Tubarão. Atualmente atua na DPCAMI (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso) de Laguna.

A eleição da Adepol-SC ocorreu no mês de março. Vivian é a segunda mulher a assumir a presidência da Associação, que tem 53 anos de história. Antes dela, a Delegada Sonêa Maria Ventura Neves, comandou a entidade na gestão 2007/2009.
 
Em entrevista exclusiva para o Sou Catarina, Vivian fala de empoderamento feminino, machismo, segurança pública, violência contra a mulher, a rotina de trabalho, sobre o livro que escreveu no ano passado e muito mais. Confira!

 
Conte um pouco sobre sua trajetória. Foi desafiador chegar até aqui?
Sou uma gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, inquieta e pragmática. Considero-me uma eterna buscadora e aprendiz da vida.
Estudei o ensino fundamental e o ensino médio em escola pública, cursei Direito, por intermédio de financiamento estudantil e mantive-me estudando por meio de bolsas de estudos, até a aprovação no concurso para Delegado de Polícia no Estado de Santa Catarina, fatos estes que jamais me desmotivaram para seguir em frente e pelo contrário, me traziam mais energia e ânsia de seguir em busca dos meus objetivos.
Sou casada, mãe de dois filhos e vivo uma vida como a de qualquer outra mulher contemporânea, tentando conciliar, da maneira mais produtiva possível, as funções profissionais e maternas, sem esquecer do ser mulher e esposa.
Mas, respondendo a pergunta em si: sempre é desafiador crescer profissionalmente e buscar um lugar de fala, especialmente, sendo mulher. Embora já tenhamos avançado muito, fruto de muitas batalhas travadas por mulheres que nos antecederam, ainda enfrentamos dificuldades e entraves culturais em protagonizar funções eminentemente masculinas. E, tenho que convir, realmente não é tarefa fácil, todavia, não podemos desistir de buscar nossos sonhos e ideais, para uma sociedade a cada dia mais equitativa e plural.
 
Delegada, sua gestão na Adepol definiu quais prioridades? Lutar pelo reajuste salarial da categoria é uma das metas?
Assumir a presidência da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Santa Catarina, nunca esteve em meus projetos profissionais, mas foi algo que acabou acontecendo naturalmente, como um anseio da classe.
Desde o primeiro dia, a diretoria da Adepol-SC, gestão 2021-2023, deixou claro que suas pautas principais seriam: a reforma da previdência, reposição inflacionária e a readequação do plano de carreira.
A derrota da reforma da previdência para a segurança pública civil, foi algo devastador, para todo e qualquer policial civil catarinense, pois, buscávamos, ao menos, o regime assemelhado à Polícia Federal, fato que não aconteceu em nosso Estado, aprovando-se, infelizmente, a pior reforma da segurança pública do país. O sentimento foi de completa desvalorização e injustiça.
Agora, ainda juntando-se os cacos e trabalhando para a retomada, estamos aguardando a finalização da tramitação dos projetos que envolvem a reposição inflacionária e o plano de carreira, demandas extremamente importantes para resgatar o mínimo de dignidade em face da Polícia Civil.
 
Uma mulher no comando (seja frente à de uma associação como a Adepol ou em outro cargo de liderança), ainda gera preconceito por parte dos homens? Como você lida com isso?
Obviamente, mulheres em posições de liderança ainda sofrem preconceitos das mais diversas ordens. Em torno de 90% da população mundial, sem importar o sexo, têm preconceito contra as mulheres, revelou um estudo recente da ONU, onde concluiu-se que nove a cada dez pessoas, inclusive mulheres, têm preconceito de gênero.
Estes preconceitos incluem que os homens são melhores políticos e líderes de negócios; que ir à universidade é mais importante para os homens; ou que deveriam ter um tratamento preferencial em mercados de trabalho competitivos.
Os números revelam essas “barreiras invisíveis” em face das mulheres que desejam ascender profissionalmente, demonstrando-se o reflexo educacional e cultural envolvido.
Agora, eu, como mulher, busco transcender qualquer barreira por intermédio do trabalho e da qualificação, pois acredito que somente dessa maneira conseguiremos diminuir o vácuo ainda existente.
 
O machismo é forte dentro da área de segurança? Por que isso ocorre?
Não considero que o machismo em si seja forte na área da segurança, pois o machismo é estrutural, um comportamento cultural, cuja inclinação é o favorecimento do homem em detrimento à mulher. Na prática, uma pessoa machista é aquela que acredita que o homem é superior à mulher ou que tem papel distinto só pelo fato de ser homem, subjugando a mulher como sendo inferior.
Portanto, o que há são adequações comportamentais e culturais em face da inclusão da mulher nas forças de segurança, fato que aconteceu em nosso país, somente, na década de 50, especificamente em 1955, quando as primeiras mulheres passaram a integrar a primeira polícia feminina no Estado de São Paulo, fato capitaneado pela Dra. Hilda Macedo, defensora da causa, todavia, o distrito possuía restrições de atuação.
Acredito, que de uma maneira geral, a sociedade vem evoluindo e não está sendo diferente dentro das forças de segurança.
 
Como delegada, quais foram seus maiores desafios? Combater o crime ou o preconceito?
Indubitavelmente, meu maior desafio não é controlar a criminalidade ou o preconceito, mas sim  buscar e dar plena efetividade aos serviços prestados pela Polícia Civil, considerando-se a precária estrutura da rede estatal de um modo geral. Buscar um atendimento multissetorial e disciplinar, conseguir desburocratizar e auxiliar os cidadãos em suas mazelas sociais e familiares, com certeza, é o meu maior desafio.
Em face de julgamentos ou preconceitos, por conta da minha condição de mulher, estes não me atingem, pois, bem sei quem sou e por que sou. Acredito que tudo, de uma forma ou de outra e em grande medida, acaba sendo uma questão de autoconhecimento e comportamento.
 
Creio que durante sua trajetória, tenha passado por vários desafios profissionais. Pode nos contar um momento de terror / difícil, que tenho vivido como delegada?
A rotina como Delegada de Polícia é dinâmica e exaustiva. Você não se desprende da função ao sair da Delegacia de Polícia, por isso, a vocação e o amor ao trabalho são essenciais para se manter motivado.
Passar noites sem dormir, atuando em plantões em que se lida com as mazelas do ser humano, não é tarefa fácil.
Talvez, de todas as histórias que já vivenciei dentro da Polícia, as ocorrências envolvendo crimes contra a dignidade sexual de crianças, são as mais dramáticas. Pois como uma folha de papel que se amassa, uma criança violentada, em poucas situações, retoma-se como dantes, as marcas na alma permanecem, mesmo que inconscientemente.
 
Mudando o foco da nossa conversa: A senhora é a favor de armar o cidadão? Se sim, como isso deveria ocorrer?
Sou a favor do cumprimento da Lei, observando-se os ditames constitucionais. Se o cidadão preenche aos requisitos previstos em lei, que devam ser rigorosos, para a posse ou porte de arma de fogo, não vislumbro qualquer problema nessa circunstância. Não sou a favor de medidas demagógicas e “politiqueiras”, que não agreguem no sistema de segurança pública do nosso país. Temos inúmeros problemas graves a serem minimizados e não será flexibilizando a aquisição de armas de fogo que os resolveremos.
 
Estamos vivendo em um país divido em vários aspectos. Na condição de mulher, como observa o fim disso tudo?
A polarização que vivemos atualmente é bastante preocupante, principalmente, para aqueles que como eu, jamais definirá um lado supremo e imutável, mas, também, temos que convir que historicamente ela sempre existiu. Todavia, muito me parece, que só enxergamos com visão de funil, falta-nos, talvez, abrir os olhos para uma visão mais abrangente, pois, acabamos cometendo os mesmos erros, especialmente, na política brasileira. Eu ainda acredito no diálogo, na coerência, no respeito à constituição e às instituições. Acredito na educação, nas liberdades, numa economia forte e em uma sociedade plural, com respeito às diferenças.
 
Diariamente acompanhamos pela mídia inúmeros casos de violência contra as mulheres, idosos, crianças, adolescentes e preconceito... Como combater tudo isso?
A violência em face das mulheres é um fenômeno complexo e cultural, só neste ano já se registrou quase 52 mil casos de violências domésticas ou familiares em face de mulheres no nosso Estado.
É uma demanda a ser controlada pelas instituições e órgãos envolvidos, não só com a repressão, mas também com ações de prevenção e políticas públicas, num trabalho em rede, articulado e comprometido. Não é nada simples, mas é preciso dar os primeiros passos.
 
Que orientação você pode dar para as mulheres que sofrem violência?
Procurem orientação. O controle da criminalidade inicia com o exercício de cidadania e informação. Buscar orientação sobre os seus direitos e exercê-los quando necessário. Para grande parte das mulheres ainda faltam informações básicas sobre direitos de diversas áreas.
As delegacias especializadas, as DPCAMIs (delegacia de polícia de proteção à criança, adolescente, mulher e idoso) do nosso Estado, são uma grande porta de entrada para a articulação dessas demandas.
 
Você é casada? Tem filhos? Como administra e concilia a vida familiar, amigos, Adepol...?
Sim, como mencionei no início, sou casada há quase duas décadas, sou mãe do Benício, de 9 anos de idade e da Maria Clara, de 6 anos idade. Atuo na DPCAMI de Laguna, faço plantões e presido a Associação dos Delegados do Estado.
Minha rotina é extremamente intensa e organizada, com o objetivo de dar conta de todas as funções de forma produtiva. Participo com afinco de todos esses papéis, como mãe, esposa, amiga, colega, além de buscar e encontrar momentos de estar comigo mesma, cuidando de mim.
 
Você, como a maioria das mulheres, é multitarefa. Como manter a saúde física, emocional e ainda ser uma grande profissional?
Para me manter em equilíbrio preciso dos meus momentos de solitude. Busco fazer coisas que me tragam prazer, comigo mesma: como uma caminhada, a leitura, estudar ou tomar uma taça de vinho. Obviamente, que os momentos em família me renovam, o trabalho me renova, como tantas outras atividades com colegas e amigos. Mas os momentos de solitude, ahh sem dúvidas, esses são essenciais para minha reconexão e equilíbrio. Procuro exercitar-me, alimentar-me relativamente bem e faço terapia, atualmente, quando necessário. Nem sempre é fácil, há momentos mais equilibrados e outros nem tanto, mas tudo bem, sigo buscando ser melhor a cada dia, para mim e para os outros.
 
No dia a dia, muitas mulheres desanimam. As vezes falta encorajamento entre nós mesmas. Que palavras de incentivo pode deixar para as mulheres que acompanham nossa entrevista?
Vou citar um trecho do livro que escrevi no ano de 2020 que se chama Expire e Inspire-se, a energia feminina, a coragem da delegada e a sensibilidade de uma mãe. Um livro que traz reflexões acerca do feminino, carreira, relações, trabalho, liberdades, intimidades, autoconhecimento e maternidade:
Toda vez que uma mulher sofre, eu sofro,
Toda vez que uma mulher é estigmatizada, eu choro,
Toda vez que uma mulher se cala, eu perco um pouco da minha voz,
Toda vez que uma mulher é agredida, eu sinto sua dor,
Toda vez que uma mulher morre, morre um pouco de mim.
Sejamos todas uma só, na busca de igualdade e respeito a todas as mulheres.
 
Conheça mais a delegada Vivian: Instagram @garciaselig.
Para aquisição do livro sem custo de entrega, acesse o link na bio.

 





VEJA TAMBÉM