SAÚDE

48h de plantão: Enfermeira fala da exaustão dos plantões dobrados, mas da decisão de nunca desistir
Dez anos na área hospitalar, sete no SAMU e os desafios de uma pandemia: “Eu vi muitas despedidas, eu vi muitas caras de pavor e medo... Todos ficamos exaustos. Poucos são os que não tomam alguma medicação para ansiedade. Mas, eu nunca vi ninguém reclamar do trabalho árduo.”

"Na enfermagem a gente não pode e não deve se acostumar com tudo que a gente vê, mas ao longo do tempo, vamos separando a razão da emoção." Essa afirmação é de uma enfermeira que acompanhou de perto a fase mais dramática e dolorosa da pandemia da Covid. O portal Sou Catarina entrevistou a enfermeira Tamires Perego - profissional que atuou por dez anos na área hospitalar, sendo que em sete destes anos, também foi socorrista no SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

Atualmente, Tamires está iniciando uma nova jornada profissional. Na entrevista ela revelou o amor pela enfermagem, os desafios de conciliar dois empregos, emendar plantões e manter uma dupla jornada.
"Eu penso que a pandemia serviu para mostrar que a vida é breve e que não há espaço para pequenas coisas, mágoas ou remorso. A vida e a saúde são presentes e devemos ser intensos em tudo que fazemos," avalia Tamires.

Confira a seguir a entrevista exclusiva!





Tamires, fale um pouco sobre você.
Me chamo Tamires Perego, tenho 34 anos, sou natural de Rondinha/RS (uma cidade com aproximadamente 5.520 habitantes, localizada no Noroeste gaúcho). Meus pais se chamam Ana e Edemar. Tenho um irmão mais novo, chamado Mateus. Me criei e cresci naquela cidade. Estudei o Ensino Fundamental e Médio lá, sempre em escola pública. Por anos participei do Grêmio Estudantil e grupo de jovens - atividades que eu adorava! Aos 18 anos me mudei para Criciúma/SC, para cursar faculdade, morando lá até me formar. Depois, me mudei para Xanxerê/SC, onde resido atualmente.

Qual a sua a formação e por que escolheu essa área?
Sou enfermeira. Conclui minha graduação em 2010, na ESUCRI de Criciúma. Quando eu era pequena, lá em casa tinha alguns livros, seringas e luvas que eram da minha mãe - ela cursou o Auxiliar de Enfermagem, porém não conseguiu atuar (ela ficou traumatizada ao auxiliar um parto normal), brinquei algumas vezes com estes materiais, mas não com tanta atenção. No final do Ensino Médio realizei um teste vocacional e de algumas profissões, a que me chamou atenção foi jornalismo. Porém, minha mãe não gostou da ideia, não pela profissão em si, mas pensando em onde eu arrumaria um emprego. Ela falava que os hospitais sempre precisam de pessoas para trabalhar, pois sempre tem alguém doente e eu respondia que nunca seria enfermeira.
Neste tempo, conheci o livro "Por um fio" do Dr. Dráuzio Varella, onde ele conta a experiência de 11 anos trabalhando no Hospital do Câncer, de São Paulo e ali me veio uma vontade imensa de cuidar das pessoas doentes. Em junho de 2006 estava lá, iniciando a faculdade de enfermagem.





Você já atuou em diferes cidades e em diferentes instituições. Conte sobre essas experiências.
Quando terminei a faculdade, decidi não ficar em Criciúma, pois ficava longe da cidade dos meus pais. Então comecei a maratona de procurar meu primeiro emprego. Enviei currículo para hospitais de cidades próximas e fiz alguns concursos - nenhum deu certo. Fiquei sete meses procurando e procurando emprego.
Em fevereiro de 2012 consegui meu primeiro emprego. Foi uma felicidade tão grande! Iniciei minha vida de enfermeira no Hospital Regional São Paulo de Xanxerê, trabalhando em alguns setores como Emergência, UTI Geral e UTI Neonatal.
Em fevereiro de 2014, comecei em mais um emprego, como enfermeira socorrista no SAMU. Foi aí que começou minha dupla jornada: Trabalhava 12 horas noturnas no hospital e emendava com 12 horas diurnas no SAMU, sendo assim, eu fazia 24h de plantão e descansava 24h.
Poucas pessoas sabem, mas a remuneração na enfermagem passa longe de ser a ideal, sendo assim, como a rotina dos hospitais nos permite trabalhar à noite, muitos profissionais possuem jornada dupla de trabalho, para ter uma renda melhor e assim conseguir comprar carro, apartamento e etc.
Em 2015, eu iniciei minha pós-graduação na área de Urgência, Emergência e Trauma, pelo IBGEN. Nessa época, além de trabalhar em dois empregos, a cada 15 dias eu rumava para Passo Fundo/RS, para cursar minha pós-graduação.





Tamires, na época de jornada dupla, você também enfrentou os desafios da pandemia da Covid-19 - trabalhando no hospital e como plantonista do Samu. Como foi essa época?
A pandemia chegou e deixou todos profissionais de saúde com medo e incerteza, uma doença letal e desconhecida, que necessitava de paramentação e ainda assim era transmitida.
No começo senti medo, pois o desconhecido costuma causar essa sensação, porém no decorrer, pensei em quão útil eu poderia ser e quantas pessoas eu poderia ajudar e aí pedi para Deus me proteger e que a vontade dele prevalecesse.
Nesta época, eu iniciava às 07h meu plantão no SAMU. Como não haviam leitos disponíveis na região, começamos transferir os pacientes para Lages, Videira, Indaial, Blumenau... A dinâmica do SAMU, sempre foi de uma ambulância não percorrer mais de 200 km em uma transferência, então fazíamos interceptações com outra ambulância. Por exemplo, antes da pandemia, um paciente que seria transferido pelo SAMU de Xanxerê para Florianópolis, trocaria de ambulância de três a quatro vezes até chegar lá - desta forma, a USA de Xanxerê levava até Joaçaba, que levava até Lages, que levava até Florianópolis. Na pandemia, todas ambulâncias estavam muito ocupadas e precisávamos então percorrer distâncias maiores.
Por isso, começamos ir direto até Lages ou Curitibanos. Quase todos os plantões, tínhamos uma viagem cansativa, com pacientes graves que demandavam muito empenho e atenção da equipe. Nós garantíamos o café da manhã, mas o almoço era geralmente lá pelas 16h em uma lancheria em algum posto de combustível.
O meu horário no SAMU era até às 19h, quando de lá eu saia correndo para iniciar meu plantão noturno no hospital, porém como as viagens eram longas, por muitas e muitas vezes me atrasei e consequentemente cheguei atrasada no hospital. Minha chefe do hospital sempre foi muito compreensiva, pois sabia que era um momento delicado e que o meu atraso no hospital não era de propósito, mas por uma causa maior.
Chegando no hospital, eu iniciava meu plantão noturno - na época eu estava na UTI Geral, então não atuava diretamente com os pacientes com COVID, só quando fazia algum plantão extra ou para cobrir algum atestado. Do hospital eu saia às 07h e ia para casa dormir e recarregar minha energia.





Chegou a virar noites e emendar plantões?
Sim, muitas e muitas vezes! Tínhamos um déficit grande de profissionais. Alguns largaram o emprego por medo e a grande maioria ficou afastava/isolada pela infecção da COVID. Além de tudo, enfrentamos o auge da pandemia por volta de fevereiro e março de 2021, não dispondo de leitos suficiente de UTI e com superlotação da nossa emergência. Por isso, precisávamos trabalhar além dos nossos plantões e realizar plantões para cobrir atestados e falta de colegas. Como eu atuava nos dois empregos, já emendava 24h normalmente e trabalhando mais eu emendava 36h, o máximo que aguentei foram 48h de plantão.

Como profissional você conseguiu atuar e ajudar muitas pessoas. Mas, e nos casos mais críticos e de óbitos, a pessoa Tamires conseguiu lidar bem com isso?
Foram muitos óbitos. Perdemos inúmeros pacientes e foi a coisa mais triste que meus olhos jamais tinham visto ou imaginado ver, ter que deixar o paciente longe da família e após o óbito colocar o corpo envolto em saco plástico, sem a família poder ver ou se despedir.
Foram muitos pacientes implorando para ser intubados, pois não conseguiam mais respirar, aí você até tenta, mas não consegue mensurar o sofrimento que esse paciente está passando. Muitas vezes eu cheguei em casa e pensei o quanto privilegiada eu estava sendo, em não ter nenhum familiar adoecido ou internado e ter passado a doença apenas com sintomas leves.
O que eu podia fazer era rezar, para agradecer a Deus pela vida e para pedir saúde para os familiares dos meus colegas. Tivemos também muitos colegas que ficaram internados e foi nessas horas que o baque foi maior, pois alguém que estava ali do seu lado batalhando contra aquela doença maldita, agora estava ali deitado na cama em um leito de hospital, precisando de oxigênio para respirar - graças a Deus, não perdemos ninguém!
Eu penso que a pandemia serviu para mostrar que a vida é breve e que não há espaço para pequenas coisas, mágoas ou remorso. A vida e a saúde são presentes e devemos ser intensos em tudo que fazemos.






Nesse período, olhando para trás, como descreve o seu fator psicológico e emocional?
Eu vi muitas despedidas, eu vi muitas caras de pavor e medo, olhos que buscavam nos meus algum conforto ou algum sinal de que tudo iria ficar bem. Infelizmente não podíamos garantir nada.
Na enfermagem a gente não pode e não deve se acostumar com tudo que a gente vê, mas ao longo do tempo, vamos separando a razão da emoção.
No SAMU eu atendi muitas vítimas de acidente, inclusive crianças, mas se naquele momento crucial eu entrasse em desespero, não conseguiria atender aquela vítima e isso poderia implicar no desfecho fatal, então na hora eu agia e a emoção vinha depois, quando eu chegava em casa, tirava meu macacão e caia no sofá.
Na pandemia, um certo dia, nos passaram uma transferência de uma criança de dois meses, COVID (+), que seria transferida de Chapecó para Lages, então colocamos ela na incubadora, ela estava intubada, ajustamos todos os aparelhos e materiais necessários, quando chegamos na porta do hospital, os pais aguardavam para ver ela e dar tchau (no SAMU não levamos o acompanhante junto), quando aquela mãe começou falar e se despedir, não pude conter a emoção e chorei junto com ela. Eu nunca mais tive notícias da criança.

E os demais profissionais que você convivia? No auge da doença, com muitas mortes e falta de leitos nos hospitais - hoje, que análise você faz deles e da atuação?
Todos ficamos exaustos. Poucos são os que não tomam alguma medicação para ansiedade. Mas eu nunca vi ninguém reclamar do trabalho árduo. Claro que reclamamos das condições de trabalho e do pouco investimento na saúde, mas de estar ali, cumprindo o seu papel, eu não escutei reclamações.
A pandemia serviu também para unir as diversas profissões. O doente sempre precisa do médico e da enfermagem, mas na pandemia vimos quanto importante é o trabalho das fisioterapeutas, psicólogas, nutricionistas, farmacêuticas, bioquímicas, mas mais que isso, a pandemia mostrou o pessoal da recepção, higienização, lavanderia, coletor, porteiro... Todos são de extrema importância para o funcionamento de qualquer serviço de saúde, que tem o paciente como o maior favorecido e é para ele que todos trabalhamos.



No mês de maio foi comemorado o Dia do Enfermeiro (12 de maio), e com a pandemia da Covid-19, nós percebemos que atuação da enfermagem, ficou muito mais em evidência. Muita gente, que até então não prestava atenção na atuação nestes profissionais, passou a valorizar mais as equipes de enfermagem. Recentemente inclusive, houve uma grande mobilização para aprovação do piso salarial da enfermagem. Apesar disso, você acredita que essa categoria ainda precisa de reconhecimentos?
Eu acredito que nós fomos evidenciados durante a pandemia, mas não que isso tenha trazido valorização e reconhecimento. A enfermagem possui vários estereótipos, como de sermos anjos, heróis... por muito tempo foi uma profissão ligada a caridade e a doação, mas nós não vivemos de amor, abraços e beijos. Temos contas para pagar, filhos para criar e educar, compramos roupas, comida, remédios... e isso não pode ser pago com beijos e abraços.
Nossa profissão é científica. Estudamos cinco anos a ciência do cuidado e atuamos dentro de uma equipe. Não somos a secretária do médico. Há 30 anos lutamos por uma jornada de trabalho de 30h e por um piso salarial, pois há muita discrepância de valores em todo o Brasil. Então, eu vejo um caminho longo pela frente, mas com muita esperança de dias melhores.



Tamires, felizmente hoje temos outro cenário na saúde em relação a pandemia da Covid. Quais são suas metas para o futuro profissional? Com o que sonha?
Minha meta é desacelerar. Trabalho na área hospitalar há 10 anos e destes, sete anos trabalhei em dois empregos, naquela jornada exaustiva de 24 horas de plantão e 24 horas de folga, perdi aniversários, Natal, Páscoa, Ano Novo e por aí vai. Quero formar família, ter filhos, desfrutar bons momentos com a família e com meus amigos. Precisamos do trabalho para o sustento, então acho válido sim, por algum tempo sacrificar algumas coisas para ter um bom salário, mas não podemos ser refém disso. E quando eu estiver mais velhinha e aposentada (risos) quero ter um sítio com cachorro, gato, galinha, porco e cavalo.
Para finalizar, deixo a frase:
"Todo o bem que eu puder fazer toda a ternura que eu puder demonstrar a qualquer ser humano, que eu os faça agora, que não os adie ou esqueça, pois não passarei duas vezes pelo mesmo caminho." - James Greene


Fotos: Arquivo pessoal da entrevistada



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SAÚDE  |   06/08/2022 21h49