COMPORTAMENTO

Entrevista com Josiane Lima - A única mulher medalhista em jogos olímpicos e paralímpicos


Josiane sofreu um acidente de moto em 2004 e perdeu a mobilidade da perna esquerda

Josiane Lima é natural de Florianópolis, filha de pescadores e a única mulher medalhista em jogos olímpicos e paralímpicos do Brasil.
Josiane sofreu um acidente de moto em 2004 e perdeu a mobilidade da perna esquerda. Em 2006, iniciou no remo e nunca mais parou. Ela conquistou várias medalhas - são quatro ciclos olímpicos: Pequim 2008, Londres 2012, Rio 2016 e por último Tóquio (2021/ Olimpíadas de 2020). Agora, a atleta se prepara para a próxima Paralimpíada, em Paris 2024.
Confira a entrevista exclusiva que Josiane concedeu ao Sou Catarina!

 
Josiane, o remo é um esporte que possui várias categorias. Por quais categorias já passou?
O remo paralímpico possui três categorias a PR1, que é geralmente para pessoas com lesão medular que tem movimento só de ombro e braço. A PR2, que a minha categoria - eu tenho movimento de tronco e braço. E tem também a PR3, que é para pessoas que têm amputação geralmente de pernas ou braço, alguma lesão de plexo braquial, enfim algum outro tipo de perda funcional, mas que tem os movimentos de pernas tronco e braço completo. Como é o remo convencional e a minha categoria permite que eu possa competir na categoria PR3, então, já fiz diversas provas na categoria PR3, só que nessa categoria eu sou pouco competitiva, porque eu não tenho movimento de pernas.

 
Você é a mulher com mais medalhas em jogos olímpicos e paralímpicos do Brasil. O que significa para você ter essas conquistas?
Ter conquistado a medalha paraolímpica em Pequim-2008, foi realmente um marco na história do Brasil. Foi a primeira vez que o remo do Brasil conquistou uma medalha em jogos paralímpicos e também olímpicos. Foi o marco conquistado há 13 anos, foi uma grande referência. Eu continuo ainda sendo a única mulher que possui uma medalha em edições de jogos olímpicos e paralímpicos e agora o Renê Pereira, conquistou em Tóquio também uma medalha de bronze, que foi a segunda medalha da história do remo do Brasil. Ele é o segundo homem, já que a primeira medalha foi conquistada comigo e com meu parceiro Elton Santana, na dupla, no barco duplo em Pequim-2008. Um marco até hoje na história do Brasil.
 
Quais são e quantas são as medalhas e títulos que você possui?
Eu conquistei uma medalha de ouro no campeonato mundial em 2007, na Alemanha; medalha de bronze paraolímpica, conquistada em Pequim 2008; uma medalha de prata no campeonato mundial conquistado na Polônia em 2009 e também uma medalha de bronze no campeonato mundial, conquistado em 2014, na Holanda. Então, tem uma medalha de ouro, prata e bronze e campeonatos mundiais. Tenho três pratas em Copa do Mundo, conquistada na Sérvia, Itália e Áustria, também 2012, 2015 e 2018. Tem também o penta campeonato mundial de remo Indoor, cinco primeiros lugares consecutivos no Campeonato Mundial de Remo, onde sou campeã brasileira invicta, desde 2006. Fui eleita a melhor atleta paraolímpica do Brasil em 2009.
 

Josiane, como você pode definir a sua trajetória até aqui?
Eu posso definir minha trajetória com muito amor, muita dedicação, muito afinco, muita entrega até aqui e perseverança, resiliência e resistência para chegar até aqui. Minha quarta paraolimpíada e vou me firmar ainda mais, com resiliência para poder chegar em Paris nos jogos de 2024.
 
Agora, você tem treinado? Qual a próxima competição?
Eu tenho treinado focando mais no funcional, evitando uma lesão repetitiva, o desgaste articular acontece muito por causa do esporte de rendimento, então procuro fazer outras atividades. Remar no caiaque, fazer exercícios funcionais, movimentos diferentes para me poupar as articulações também. A próxima competição está prevista para maio e junho, que é a Copa do Mundo e tem a regata de Gavirate. O nosso calendário começa a partir de maio, com a regata, depois em junho tem a Copa do Mundo e em agosto e setembro vai ser o Campeonato Mundial, que vai ser na República Tcheca, no próximo ano.
 
Para o futuro, o que espera? Quais são seus sonhos?
O que eu espero é estar bem, em boa forma, em boas condições competitivas para representar o Brasil nos jogos de Paris de 2024, que vai ser o principal desafio da minha vida. Eu vou estar com 49 anos e espero cada vez mais estar quebrando paradigmas, enfrentando toda essa construção de estereótipos do atleta. Eu quero quebrar todas essas teses a respeito da vida, da longevidade dos atletas. Então, eu estou firme. Me mantenho ativa, competitiva e espero mais uma vez representar o Brasil nas paraolimpíadas de Paris 2024. Especialmente por ser em Paris, onde tem uma questão política, um movimento de liberdade individual, da garantia dos direitos, da dignidade da pessoa humana. Em Paris, foi proclamado os direitos humanos, que veio nos movimentos da Queda da Bastilha, o movimento à liberdade do povo. Tudo isso é muito significativo e eu vou ficar muito orgulhosa de poder competir a minha quinta paraolimpíada lá.


 
Agora, falando do passado. Você sofreu um acidente e ficou com a mobilidade comprometida. Como o remo surgiu na sua vida?
Eu sofri um acidente grave de moto, próximo da minha casa, em 2004 e perdi a mobilidade do joelho esquerdo. Aconteceu o esmagamento da minha perna esquerda. Usei um ano aquela gaiola de ferro, o fixador externo. Eu estava a caminho de um treino de futebol, estava jogando futebol society com as amigas na época, e o acidente foi numa segunda-feira e graças a Deus eu tive o grande apoio da equipe do Hospital Governador Celso Ramos, que é um hospital-escola, hospital público. Fui recebida, atendida e acolhida pelos profissionais que fizeram um excelente trabalho comigo e pouparam a minha perna da amputação. No entanto, eu fiquei com essa perda de mobilidade. Por isso, eu não tenho a flexão total do joelho. Tenho um pouco de dificuldade para caminhar e fiquei com mobilidade reduzida em razão disso.
 
O remo é um esporte que requer muito treino e tem muita competitividade. Na sua opinião, o remo tem a visibilidade que merece?
O remo entrou na minha vida dois anos depois, quando eu acabei fraturando a mesma perna de novo. Como sou filha de pescador aqui do Norte da Ilha do Sambaqui, sempre tive essa proximidade, essa intimidade com o mar, com mergulho, com pesca, navegação, vela... Então sempre estive no mar desde pequena e tenho essa relação e essa experiência grande com navegação, com outros tipos de embarcações. Além disso, eu já era professora de educação física, já tinha sido atleta federada aqui em Santa Catarina. Tinha participado de jogos abertos, tanto no vôlei e principalmente no judô, que me deu uma estrutura física mais reforçada, isso foi muito bem aproveitado depois no remo. O remo é um esporte duro. É um esporte que exige muito fisicamente do atleta. É um esporte de resistência, de força... Uma prova longa, de 2km, exige muita força e muita resistência também, muito cardiopulmonar e muita força muscular.
O remo acabou sendo muito elitizado e ficou distante do povo, por não oportunizar as pessoas mais pobres a experiência de conhecer o remo. Eu acho que esse foi o principal fator que fez com que o remo perdesse visibilidade.


 
E quanto aos incentivos por parte da iniciativa privada ou pública? O remo é um esporte que tem a devida valorização?
É um esporte caro. Os barcos são caros e o esporte exige muito investimento financeiro, por parte do atleta também, para poder estar se deslocando para o local de treinamento. Precisa investir em suplementação e os equipamentos são inviáveis de um atleta conseguir os equipamentos básicos de treino, então precisa realmente do clube. Os clubes também acabam não tendo recursos para poder renovar a frota de barcos e equipamentos. O esporte paralímpico não tem investimento privado, patrocínio privado. Isso é bastante raro e são pouquíssimos atletas que conseguem buscar um patrocínio privado. É difícil mesmo. O que acontece, que salva mesmo os atletas e que fez realmente uma revolução no país, foi a implementação do bolsa atleta - um programa federal que depois foi copiado para os Estados e também alguns municípios. O bolsa atleta, é investimento direto no atleta, fundamental para que os atletas consigam ajudar a custear parte das despesas para poder se dedicar para o esporte. O bolsa atleta é o maior programa de incentivo individual no atleta no mundo pelo número de atletas. Agora, a gente teve mais de seis mil atletas apoiados nas categorias estudantil de base, estudantil nacional, internacional, olímpico e paralímpico.
 
Josiane, muitas mulheres em virtude da sobrecarga de trabalho e afazeres, não praticam atividades físicas. Que mensagem de incentivo você pode deixar para que mais mulheres se exercitem?
Para as mulheres, eu acho bem difícil. As mulheres vivem numa sobrecarga extrema de trabalho. Uma carga dupla, tripla de trabalho. Elas fazem toda a liderança das casas. Mulheres, tem essa liderança nata. Somos educados para cuidar da família, então é uma liderança dentro das famílias. Acredito que essa sobrecarga impede que as mulheres tirem tempo para cuidar de si próprias. E essa é uma das razões que a gente vê tantas mulheres com depressão, ansiedade, pânico... Tudo isso acomete muito mais as mulheres, justamente pelo nível de estresse a qual as mulheres são submetidas. As mulheres apoiam a família, os seus companheiros, suas companheiras e são pouco apoiadas. Acabam sempre abrindo mão do seu próprio bem-estar em prol do bem-estar do outro e é por isso, na minha opinião, que as mulheres são mais acometidas por problemas de saúde.
Teria que reformular as atividades das mulheres e refazer, reconduzir a sociedade para que possam compartilhar as responsabilidades que caem exclusivamente no colo das mulheres, para que elas possam melhorar a qualidade de vida.
E o que eu posso deixar de mensagem para todas, é que dediquem um tempo para olhar para si mesmas. Se voltem para dentro de si. Busquem os seus sonhos. Busquem suas realizações, porque uma mãe feliz e realizada, tem um impacto enorme na condição da família.






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